sábado, 4 de dezembro de 2010

Relacionamentos abstratos

Os fluídos não vão se prender no tempo ou no espaço e estarão dispostos a mudanças, adaptando-se perfeitamente a elas, em meio a uma realidade imediata e obsoleta, por isso o ciberespaço é o meio perfeito para que convivam e explorem.


Em Modernidade Líquida, 1925, Bauman Zygmunt afirma:


“Cada vez menos a comunicação está confinada a lugares fixos, e os novos modos de telecomunicação têm produzido transmutações na estrutura da nossa concepção cotidiana do tempo, do espaço, dos modos de viver, aprender, agir, engajar-se, sentir, reviravoltas na nossa afetividade, sensualidade, nas crenças que acalentamos e nas emoções que nos assomam.”


            Tal conceito permite-nos rememorar outro, o dos não lugares, ou seja, espaços vazios que não se atribuem significados e que não precisam ser delimitados fisicamente por barreiras ou fronteiras. É neles que se dão as experiências, onde estranhos se encontram, e se relacionam de forma rápida e sem envolvimento profundo, manifestando o desejo por continuar só e pelo individualismo da vida pós-moderna.
            Junto com a simultaneidade de informações, criou-se a necessidade de se fazer notável em meio a um mundo descartável e obsoleto, por isso aprendemos a dizer o que estamos fazendo a todo o momento e saber o que os outros fazem ,aprendemos a twittar, a seguir blogs, a visitar orkuts e atualizar posts. Fizemos da internet um meio de mostrar certa notoriedade em um mundo onde somos cada vez mais passageiros.
            Mesmo em um momento tão diverso de qualquer outro já vivido no decorrer da história, ainda temos as mesmas necessidades sociais, só que agora nos habituamos com facilidade a manusear as ferramentas que nos estão dispostas.
            As necessidades humanas são as mesmas, mas as formas de se lhe dar com elas são outras, grandemente influenciada pela abstração pós-moderna advinda com a rede virtual.
            Até nossos relacionamentos afetivos são mediados pela internet, mostrar suas fragilidades e expor-se é um preço muito elevado a se pagar, na era do descartável não há tempo para conhecer o outro de forma profunda, há apenas tempo para observar os detalhes mínimos, que permitam uma pequena identificação. Após os relacionamentos instantâneos, a era do obsoleto, mostra não descartar apenas objetos, mas também pessoas.
            Variadas vezes vemos mais o simulacro do outro do que a sua forma real e concreta. E, para alguns, o simulacro se torna mais importante do que a imagem real, afinal a socialização é mais recorrente em ambiente virtual.
            Somos mesclas, como todos os nossos antepassados, temos um pouco de modernos e pós-modernos, a única coisa que diferiu no decorrer do tempo foi o que deixamos falar mais alto.
           
            No caso da era digital, não há espaços para inflexibilidades, ao contrário, há espaço para agregações e agregados, para todos aqueles que querem fazer desse meio um lugar mais eclético e múltiplo, passível de ser consumido por todos os seus usuários: os fluídos.

A era dos fluídos

           
           
            Abstratos, fluídos, impalpáveis. Essas são mais do que palavras, tornaram-se parte do que hoje nos tornamos.
            Temos uma característica fluida que permite com que contornemos obstáculos e nos adeqüemos ao formato padrão.
            E quando não se tem um formato, mas uma variedade deles?
            Aí, mostramos a versatilidade pós-moderna e nos adequamos a todos quanto possíveis. Somos vários, ao mesmo tempo, e em diversos lugares, tudo isso sem sair de casa.
            A era virtual nos permite uma nova realidade, por mais paradoxal que isso possa ser. Passamos a constituir “realidades múltiplas” em mundos que nós mesmos formamos e selecionamos os participantes deles.
            O trabalho, a família, os estudos, todas as relações podem ser construídas e estreitadas neste meio ou até mesmo o contrário.
            Bauman Zygmunt explica que para dar um passo avante rumo a um novo enraizamento, agora todas as coisas- emprego, relacionamentos, afetos, o amor, etc.- tendem a permanecer em fluxo, voláveis, desreguladas e flexíveis.
            Em meio a tanta tecnologia, surge a cultura da mobilidade. Falar de qualquer lugar e estar constantemente conectados por dispositivos móveis faz com que surja a presença mediada, é o paradoxo da presença ausência. A era digital permitiu corpos sem órgãos, ou seja, que não possuem limites ou fronteiras, são signos traduzidos no ciberespaço, que podem chegar a qualquer lugar e estabelecer relações em diversos ambientes.
Com isso, os participantes dessa realidade tornam-se verdadeiras aparições, que podem aparecer e desaparecer na velocidade da luz e ao toque do dedo.
            Como a internet passou a ser a extensão do corpo humano, expressões como biocibernéticos passaram a ser encaradas não mais como um caráter fictício, mas como uma amplitude do pós-orgânico, expressando a relação cada vez mais aprofundada entre ser humano e tecnologia.




A geração digital



            Viver em um mundo cibernético é um dos desafios dos jovens desta era, ou mesmo, se mostra como uma facilidade dependendo do ponto que de vista. Inseridos no contexto de realidades virtuais, fácil adaptação, descartabilidade e instantaneidade, a juventude que convive com esse turbilhão de transformação sofre mudanças psicológicas e sociais, ao estar inserida neste meio.
            Antes do contato com o computador, as relações se davam de forma mais sólidas e pessoais, as conversas não tinham mediadores, mas se davam face a face e expunham as tão exaltadas regras morais da sociedade. Existiam formas de proceder que eram disseminadas e consistentes, passadas de geração em geração.
            Com o advento da internet, as relações sociais, a forma de pensar e todas as ideologias, se transformaram causando um impacto no jovem que cresceu em meio ao ciberespaço.
            As empresas de comunicação fizeram da cultura digital um negócio rentável e promissor, alimentado pelo consumo de pessoas que anseiam a cada segundo pelo novo.
            Mídias móveis passaram a suprir uma necessidade cada vez mais notável, a necessidade de pertencimento. As pessoas sentem a necessidade de estarem no ciberespaço, porque ele transpassou todas as barreiras do trabalho ou entretenimento, ele se tornou tudo em um só lugar, de forma prática e ao alcance dos dedos.
            Entretanto, a sociedade sofreu modificações comportamentais quanto a isso, principalmente os jovens que cresceram com os dedos no teclado de um computador.
            O adolescente de hoje chega a fazer bem mais parte do universo digital do que do universo real, transpondo quaisquer fronteiras entre os dois, ambos se mesclam. Mas, paradoxos são analisados se comparados com os adolescentes de épocas mais distantes. Se antes se desafiava os limites, hoje não é necessário, pois eles não existem. Hoje há simultaneidade, o anonimato dá a possibilidade de se relacionar e continuar invisível, a identidade passa a ser virtual, existe acesso fácil ao proibido, muitas leis dentro do mundo virtual não são aplicadas ou fiscalizadas.
            O sentimento de pertencer a um grupo ainda é latente no adolescente, mas agora ele se filia a comunidades virtuais e faz delas seus pontos de encontro, sem necessariamente criar ligações mais fortes com os membros que a compõe.




E essa realidade se torna cada vez mais alarmante, como comprova o Ibope:

Um monitoramento mensal constatou que no mês de maio a navegação através de banda larga (transmissão rápida) triplicou desde 2005. Segundo o Comitê Gestor da Internet, 2008, mais de 50% dos domicílios com acesso a internet possuem banda larga, um aumento de 10 pontos percentuais em relação ao ano anterior.




               Partindo-se desse pressuposto, há de se levar em consideração a importância que deve ser dada à construção social de um indivíduo imerso em tal espaço desde o nascimento. Os pontos negativos e controversos do ciberespaço também devem ser analisados e, assim como o mundo digitalizado, não deve ser encarado com superficialidade, mas de forma profunda, para que os papéis não se invertam e as gerações futuras tornem-se extensões das máquinas, e não o inverso.                                                                                             

Análise do digital



            Para um grupo de teóricos, a cultura midiática pode servir como um meio de maior massificação, mas como diz Lúcia Santaella “o crescimento da multiplicidade de mídias, deu margem ao surgimento de receptores mais seletivos”.
            Com a cultura digital essa teoria foi sacramentada!
            Atualmente não recebemos a informação de um mesmo formato e meio, mas recebemos a mesma informação de meios e linguagens diferentes, além de selecionarmos individualmente o que é do nosso interesse se apropriar.
             Constituímos uma relação peculiar com o meio digital, nós tentamos traduzí-lo e somos traduzidos por ele. Neste contexto se dá a interface, ou seja, o contato entre o homem, tal meio e o máximo possível de transcrição do complexo ser humano em um mundo navegável, o ciberespaço.
            Tentamos traduzir o ciberespaço na medida em que tentamos nos adequar a ele, buscando conviver e nos relacionar com pessoas do mundo inteiro que podem ou não ser reais. Afinal de contas, trata-se de um lugar onde personalidades podem ser construídas e desconstruídas na velocidade de um click.
 A cyber-realidade passa a ser um jogo de controvérsias, pois há a presença de paradoxos constantes , como comunidades virtuais e comunidade locais, proximidade física e interdependência mútua, medo da ausência do humano  quando nos encontramos na telepresença, entre outros.
            Observamos o advento de realidade virtual, que segundo Lúcia Santaella, em Culturas e artes do pós-humano, 2003:

“É a idéia de imersão, usando estereoscopia, mediação da direção dos olhos e outras tecnologias para criar a ilusão de estar dentro de uma cena gerada pelo computador. É a idéias de navegar, criando um modelo computacional.”

                                                    

            Na fase do ciberespaço, a comunicação mediada por computador, permitiu a formação de comunidades virtuais, onde pessoas do mundo inteiro se relacionam por meio de uma forma de mídia, se socializam preservando o individualismo.
            A efemeridade das relações passa a se tornar bem característica do momento vivido. A socialização digital se dá a todo o momento e em qualquer lugar, facilitada por dispositivos móveis, como aparelhos de bolso.
            Estar conectado é muito mais do que um capricho, mas é uma necessidade em todos os sentidos. A internet agora é uma extensão das relações humanas, sejam elas de trabalho, estudo ou mesmo sociais, a vida virtual também passou a ser um ponto importante da vida real.
            A interatividade chegou a tanto, que a coqueluche do momento é mesclar a personalização dos computadores com o espírito coletivo que a TV traz. Para isso, surgiu a idéia da TV interativa ou digital, que promete ligar indivíduos, com necessidades pessoais e, ao mesmo tempo, com mentes coletivas.      

            Paralelo a essa realidade, um convívio social se efetua, as antigas aldeias sociais são também sinônimos de comunidades virtuais. A sensação de pertencimento, a necessidade de identidade também existe no mundo virtual, mesmo que tudo se dê no nível da abstração. Pessoas de todas as partes do globo se reúnem e coabitam entre si, unidas por um caractere ou muitos em comum.
            Negros, brancos, judeus, índios, criam a ilusão da unidade global, pois todos podem ser “amigos de comunidade”, mas não necessariamente a amizade tem que alcançar meios concretos.
            É tudo muito abstrato e escorre as mãos, em meio ao mundo pós- moderno não há parâmetros exatos, mas há possibilidades bem flutuantes.
            Entretanto, taxar a cultura digital como benéfica ou maléfica é um equívoco, afinal ela mesma nos mostrou que a hibridização constitui-se no seu melhor reflexo.

A socialização virtual


            Classificar as culturas em eruditas e de massa era uma prática excludente, porém recorrente, atualmente alguns ainda ousam nomear segregações, mas antes de demonstrar qualquer tipo de preconceito essa atitude tem se tornado, no mínimo, um desafio.
            Como falar de cultura erudita ou cultura massiva quando estamos mergulhados no mundo dos “medias”?
            É muito simples, diferente do que possa parecer, basta mesclá-las. Com a cultura midiática o formalismo modernismo perdeu suas rédeas e a palavra de ordem do momento é hibridização.
            Segundo Lúcia Santaella, “em diferentes épocas houve um processo de transformação cultural, que chegam a ser divididos em 6 tipos: a cultura oral, a cultura escrita, a cultura impressa, a cultura de massas, a cultura de mídias e a cultura digital.Entretanto, não há um ponto que determine a passagem de uma era cultural para outra, elas se sobrepõe e misturam-se”.
             Depois da mescla dos conceitos de massas e mídias, surge a era digital em meados de 90, em que a informação e a comunicação se tornam onipresentes, e os textos, imagens e vídeos passam a ser convergidos em uma mídia só, nasce a revolução digital.
            Junto com essa nova revolução há a ampliação de conceitos, como o de mídia, que na época da cultura de massas se restringia aos meios de comunicação massivos e agora se referem a qualquer tipo de meios de comunicação, como aparelhos e dispositivos.
            As distinções e limitações culturais também tiveram suas fronteiras rompidas, na medida em que houve maior flexibilidade nas interações entre culturas populares, eruditas ou de massa, a tal ponto de não poder distingui-las.
Com o advento da era digital, também observamos o surgimento de previsões futuras quanto ao progresso, não se sabe até que ponto tal revolução irá avançar, mas o que notamos é um real hibridismo de gêneros, atividades, segmentos culturais e formas de interações comunicacionais.
            Independente do posicionamento existe algumas certezas, como o fato de que a comunicação interpessoal nunca mais será a mesma. Hoje cada um pode ser produtor de conteúdo, um criador e apresentador de suas próprias idéias, não restritas a um seleto grupo, mas expostas a toda humanidade, por meio da internet.
               Alguns acreditam que a era digital que vivemos é uma violação as formas tradicionais de organização dos poderes sociais, outros observam o ciberespaço como um meio de progresso social, educacional e intelectual.
                                                          

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

“Liquidamente sólidos”


Hoje eu estava refletindo sobre a minha vida e noto que sou uma “visitante” em qualquer lugar que eu vou. Tenho tantas atividades que ficar muito tempo em um lugar é quase impossível.
Bom, mas esse não é só o meu estilo de vida, se é que pode ser chamado assim, mas sim o reflexo da rotina pós-moderna.
MSN, Facebook, Blog, Orkut, entre outras redes sociais, essa é a atual forma predominante de se socializar, para os que não têm muito tempo para bater aquele velho papo na esquina. Hoje não nos olhamos nos olhos, olhamos a tela do computador, não mais falamos e somos ouvidos, mas escrevemos e somos lidos, ou melhor, nem “falamos”, twittamos, hoje somos quem e como quisermos ser em qualquer lugar de um mundo paralelo que se formou e que já se mesclou com o nosso mundo real há muito tempo.
Real ou virtual?
Fico pensando até onde podemos delimitar o mundo real e o virtual. Onde seríamos mais reais, mais nós mesmos, na internet ou no dia a dia?
Por incrível que pareça o mundo virtual nos torna mais reais, em alguns casos. Pois lá algumas pessoas são o que são, sem intimidações e repressões. São quem são, para quem quiserem ser. Afinal, na internet podemos delimitar nossos contatos sociais, só faz parte do “meu mundo” quem eu quero que faça.
Ao mesmo tempo, paradoxalmente, a vejo como um muro que se forma, pois atualmente as pessoas precisam de um meio para serem quem de fato são e antes não era assim que o processo social se constituía.
Talvez alguns pensem ser mais desafiante viver em uma época onde as pessoas tinham que, predominantemente, se relacionar pessoalmente e não podiam fazer uma escolha tão seletiva das pessoas que compunham suas redes sociais, como hoje. Mas, também é desafiante saber que você pode desfrutar dessas duas realidades atualmente, e que elas podem se mesclar até onde você permitir que isso aconteça.
Ao mesmo tempo o tradicionalismo caminha de mãos dadas com a nossa nova forma de ver o mundo. Somos seres híbridos, com características ambivalentes, eu diria, com perdão da expressão, que somos “liquidamente sólidos”.
Logo, estamos imersos em paradoxos, desconstruí-los e refazê-los faz parte de um jogo que a cada dia aprendemos mais a jogar, chamado pós-modernidade.

Palestra na Vivo.

Pessoas de diversas parte do mundo participaram de um evento promovido pela vivo , no dia 16 de setembro, com o objetivo de discutir como promover a interação entre o cyber espaço e as questões sociais, buscando progressos.E um dos grandes diferenciais desse evento é que muitos dos participantes não estavam pessoalmente presentes, e sua participação foi promovida por meio da cyber espaço, ou seja, diferentes formas de pensar e reflexões desse assunto ganharam uma dimensão mundial graças a internet.